NISE DA SILVEIRA
"...Egas Moniz, que ganhou o prêmio Nobel, tinha inventando a lobotomia. Outras novidades eram o eletrochoque, o choque de insulina e o de cardiazol. Fui trabalhar numa enfermaria com um médico inteligente, mas que estava adaptado àquelas inovações. Então me disse: 'A senhora vai aprender as novas técnicas de tratamento. Vamos começar pelo eletrochoque.' Paramos diante da cama de um doente que estava ali para tomar eletrochoque. O psiquiatra apertou o botão e o homem entrou em convulsão. Ele mandou levar aquele paciente para a enfermeira e pediu que trouxessem outro. Quando o novo paciente ficou pronto para a aplicação do choque, o médico me disse: 'Aperte o botão.' E eu respondi: 'Não aperto.' Aí começou a rebelde."*
(*) "Nise da Silveira", de Ferreira Gullar, publicado pela Relume Dumará, série Perfis do Rio.
Nascida no dia 15 de fevereiro de 1906 em Maceió, filha de mãe pianista e pai jornalista de um jornal de oposição da época, Nise da Silveira cresce em um ambiente familiar livre de preconceitos.
Apesar de preferir música, já que se reconhecia como desafinada, aos 15 anos Nise deixa Alagoas para estudar entre os anos de 1921 a 1926 na Faculdade de Medicina da Bahia. Durante seus anos de estudo, o convívio com os colegas e professores não a intimidava. O que mais a incomodava era o fato de não ter banheiro feminino na faculdade. Formou-se como a única mulher entre os 157 homens da turma e esta entre as primeiras mulheres no país a se formar em Medicina.
No ano seguinte da sua formatura, Nise foi para o Rio de Janeiro a procura de emprego. No bairro de Santa Teresa, onde morava em um quarto de aluguel, construiu amizade e discussões políticas intensas com os vizinhos Laura e Otávio Brandão, um dos principais dirigentes e intelectuais do Partido Comunista o qual ingressou no início de 1930.
Apesar de preferir música, já que se reconhecia como desafinada, aos 15 anos Nise deixa Alagoas para estudar entre os anos de 1921 a 1926 na Faculdade de Medicina da Bahia. Durante seus anos de estudo, o convívio com os colegas e professores não a intimidava. O que mais a incomodava era o fato de não ter banheiro feminino na faculdade. Formou-se como a única mulher entre os 157 homens da turma e esta entre as primeiras mulheres no país a se formar em Medicina.
No ano seguinte da sua formatura, Nise foi para o Rio de Janeiro a procura de emprego. No bairro de Santa Teresa, onde morava em um quarto de aluguel, construiu amizade e discussões políticas intensas com os vizinhos Laura e Otávio Brandão, um dos principais dirigentes e intelectuais do Partido Comunista o qual ingressou no início de 1930.
A experiência durou cerca de três anos. Disse ela: "Eu era interessada nas coisas políticas do país. Mas sempre tive muita dificuldade em me acomodar em organizações. Eu não me acomodava dentro dos esquemas do Partido Comunista. Eu queria fazer concurso para Medicina e os companheiros do partido não se conformavam que eu me dedicasse tanto a esse concurso. Eu estudava dia e noite e, naturalmente, faltava muito às reuniões. Acabaram me expulsando, acusada de trotskista. Mas eu não era trotskista. Apenas achava as apostilas stanilistas muito rígidas". **
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Em 1933 estagia na clínica neurológica de Antônio Austregésilo. No mesmo ano, aprovada em um concurso público, Nise começa a trabalhar no "Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental" do "Hospital da Praia Vermelha", hoje "Hospital Pinel". Já concursada e morando no Hospital Psiquiátrico, no bairro da Urca, Nise participou de algumas reuniões da Aliança Nacional Libertadora, amplo movimento de massas que fazia oposição cerrada a Getúlio Vargas que, em 1930, por meio das armas, havia assumido a Presidência da República.
Presa em 1936 no presídio Frei Caneca, denunciada por uma enfermeira do hospital pela posse de livros marxistas, se encontra com Graciliano Ramos, assim ela tornou-se uma das personagens de seu livro "Memórias do Cárcere". Durante esse período, Nise conheceu a privação de liberdade. A experiência teria no futuro influência determinante na condução de suas técnicas de tratamento, que evitavam ao máximo o enclausuramento das pessoas com transtornos mentais.
"Na noite de 26 de março de 36 saí presa do hospital. Fui primeiro para a rua da Relação, onde ficava o Dops. Depois fui transferida para o presídio na rua Frei Caneca. O ambiente era terrível, um corredor todo pintado de roxo. Me puseram numa cela, no térreo, que tinha um número incrível de baratas. A imundice era grande. Depois me transferiram para a famosa cela 4, onde estavam, entre outras, Olga Prestes, grávida, e Elisa Berger. Ambas, pouco tempo depois, foram deportadas para a Alemanha. Elisa era fantástica! O marido dela, Harry Berger, também estava preso e sofreu até enlouquecer. Eles torturavam Berger de uma maneira terrível. As torturas eram feitas de madrugada e Elisa acordava toda madrugada. Eu me sentava na cama e escutava suas histórias. Ouvir aquilo tudo me atingiu muito. Para mim, aquelas torturas eram inimagináveis. (...) A prisão foi uma experiência decisiva para a minha vida. Foi uma vivência muito marcante e fiquei com mania de liberdade."**
(**) Depoimento gravado em 26 de setembro de 1992.
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Nise ficou presa por um ano e quatro meses e passou mais de oito anos desempregada. Da sua ficha constiva: "Pertence a um círculo de idéias que a imcompatibilizam com o serviço público". Em 1944 é reintegrada ao serviço público e inicia seu trabalho no "Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II", no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, onde retoma sua luta contra as técnicas psiquiatricas que considera agressivas aos pacientes.
Foi nessa volta que protagonizou a cena descrita na abertura desta reportagem. Por causa de sua discordância com as técnicas então usadas e celebradas - eletrochoque, choque de insulina, de cardiazol e lobotomia, entre outros -, foi trabalhar no único setor do hospital onde não tinha que lidar com esses métodos: o de terapia ocupacional.
Até então, esse tipo de terapia consistia praticamente em apenas usar os pacientes dos hospitais psiquiátricos como serviçais. A terapia ocupacional daquela época era uma economia para os hospitais, pois desta forma tinham mão-de-obra grátis. "Os doentes eram usados para varrer, limpar vasos sanitários, servir outros doentes", recorda Nise em entrevista concedida ao escritor Ferreira Gullar e presente no livro "Nise da Silveira"*, obra biográfica sobre a médica.
Até então, esse tipo de terapia consistia praticamente em apenas usar os pacientes dos hospitais psiquiátricos como serviçais. A terapia ocupacional daquela época era uma economia para os hospitais, pois desta forma tinham mão-de-obra grátis. "Os doentes eram usados para varrer, limpar vasos sanitários, servir outros doentes", recorda Nise em entrevista concedida ao escritor Ferreira Gullar e presente no livro "Nise da Silveira"*, obra biográfica sobre a médica.
No lugar das tradicionais tarefas de limpeza e manutenção, ela cria ateliês de pintura e modelagem com a intenção de possibilitar aos doente reatar seus vínculos com a realidade através da expressão simbólica e da criatividade, revolucionando a Psiquiatria então praticada no país.
Segundo ela, terapia ocupacional não podia ser entendida como mera ocupação. Mais do que pinturas, desenhos ou arte, enxergava naqueles trabalhos testemunhos e expressões que possibilitariam o conhecimento mais profundo do universo das pessoas esquizofrênicas. Essas manifestações, as obras resultantes, permitiam penetrar no mundo interno daquelas pessoas. E interessada em compreender as mandalas, tema muito recorrente nas pinturas de seus paciente, ela escreve em 1954 a Carl Jung, iniciando uma proveitosa troca de correspondência.
Jung a estimulou a apresentar uma mostra das obras de seus paciente no "II Congresso Internacional de Psiquiatria", realizado em 1957, em Zurique. Ao visitar a exposição, a orientou a estudar mitologia como uma chave para compreensão dos trabalhos criados pelos internos. Realizou ainda, em ocasiões distintas, estudos no Instituto C. G. Jung, localizado na mesma cidade.

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Nise faz comentário sobre o Desenho de Carlos Pertius, 1976. Barca do Sol. (Ao lado)
"E por fim surge a barca do Sol, presente em numerosos mitos. A face do Sol é serena e triste. Ele vai navegar na noite e lutar contra os monstros que incessantemente esforçam-se para impedir seu renascimento."
Novas ramificações foram criadas: em 1952, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, um acervo precioso das pinturas, desenhos e esculturas dos freqüentadores da STOR e, em 1956, criou, junto com alguns colaboradores, a Casa das Palmeiras. Esta última foi criada com o objetivo de dar suporte aos pacientes egressos do hospital. Havia, na época, uma alta porcentagem de reinternações (cerca de 70%); Nise sabia que as recaídas eram provocadas pela dificuldade de reintegração dos ex-pacientes à vida na comunidade. Depois de surtos psicóticos, as pessoas ficam ainda muito fragilizadas, necessitando de apoio para a reestruturação do "eu".
A Casa das Palmeiras, instituição independente de convênios. Lá, Nise e seus amigos puderam criar um território livre em que os egressos do hospício podiam, aos poucos, recuperar a auto-estima e a independência, através de experiências cotidianas com várias formas de expressão criativa e de convívio com profissionais que se colocavam a seu lado numa postura de respeito, cuidado e não discriminação. As portas e janelas da Casa das Palmeiras são abertas, não há enfermeiros, a freqüência é diária (cerca de 5 horas por dia). Os psiquiatras, psicólogos, artistas, monitores e estagiários não usam jaleco e se posicionam lado a lado ao paciente nas atividades, na hora do lanche, nas festas. Com a base de sólidos conhecimentos científicos, (principalmente da psicologia junguiana, da terapia ocupacional e da antipsiquiatria) e da sua experiência no Centro Psiquiátrico Pedro II, Nise orientou o trabalho desenvolvido na Casa das Palmeiras, sempre enfatizando a importância do contato afetivo e da expressão criativa para a recuperação das pessoas ali atendidas.Outra se sua paixões era o convívio com animais. Nas instituições em que trabalhava bichos eram uma constante. Chamava-os de co-terapeutas. Percebeu esta possibilidade de tratamento ao obsevar como um paciente a quem delegara os cuidados de uma cadela abandonada no hospital melhorou tendo a responsabilidade de tratar deste animal como um ponto de referência afetiva estável em sua vida.
" E foi quando não apertou o botão do eletrochoque que Nise da Silveira começou - com sua rebeldia - uma revolução. Mudou de forma definitiva o tratamento psiquiátrico que se fazia no Brasil da década de 40 - e influenciou a psiquiatria do país até os dias de hoje. "
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Nise morreu em 30 de outubro de 1999. Sua vida foi marcada pela radicalidade de suas opções políticas e profissionais. E sua trajetória singular e exemplar deixou marcas profundas, não só na Psiquiatria, mas na nossa sociedade

